Tudo isso é algo simplificado. Vou tentar fazer curtinho.
Primeiro de tudo: a música é um sistema de valores puros. Nada tem valor por si só. Tudo tem valor enquanto relação. Uma bolinha em uma partitura não é nada até que se lhe ponha uma clave, uma chave de leitura. Uma figura de tempo não vale tantos milissegundos: vale metade de uma outra e o dobro de ainda outra. Uma nota não é bonita ou feia: duas juntas sim, simultânea ou consecutivamente... E mesmo que você possa dizer que uma mesma nota, emitida por um oboé ou um acordeão possa, sim, soar bem ou mal em um caso ou no outro, você está respondendo às diferentes séries harmônicas (elementos constituintes do que registramos como notas isoladas) de cada um dos instrumentos: relações. O que faz um intervalo, digamos, de terça maior não é o fato de ele compreender um dó e um mi, mas sim o de ele compreender um intervalo de dois tons, entre quaisquer das notas.
Mas o que são tons? Desde o século dezoito vigora uma convenção que, bem ou mal, rege boa parte da música até hoje, com exceção de certa música erudita da metade do XX pra frente e de certa música popular (como o blues) que nunca deu tanta bola para ela. Essa convenção divide o contínuo dos sons registrados pelo ouvido humano em doze notas: dó, dó sustenido, ré, ré sustenido, mi, fá, fá sustenido, sol, sol sustenido, lá, lá sustenido, si. E o dó de novo. Deixemos de lado a explicação para a ausência de mis e sis sustenidos, e acrescentemos aqui que, para nossos fins, vale sempre o mesmo dizer dó sustenido ou ré bemol. Sustenido sobe, bemol desce. A isso se chamou temperamento da escala: igualar os sustenidos e bemóis. O Cravo bem temperado do velho Bach foi o primeiro grande monumento do sistema. Agora, uma explicação a gente não pode pular. Por que depois do si (tudo bem que não tenha si sustenido) não vem, digamos, um flum? Por que repetir tudo? Aí a explicação é fisicamente singela. Todos os intervalos de uma oitava, ou seja, os intervalos entre notas de mesmo nome, têm uma característica comum: as freqüências das notas se encontram em uma relação de 1:2. Uma é a metade, exatamente, da outra. Daí as doze notas. Separadas por meio tom cada uma.
Acordes, por sua vez, são conjuntos de, pelo menos, três notas, tipicamente executadas simultaneamente, ou verticalmente, como se diz na música. Os dois acordes mais comuns são o maior e o menor. Um acorde maior tem as seguintes relações: Dois tons entre a primeira e a terceira notas e um tom e meio entre a terceira e a quinta. O que chamamos de uma terça maior e uma terça menor. Elas juntas (três tons e meio) formam uma quinta justa, o intervalo mais consonante de todos. Se você troca a ordem das terças, põe uma menor e depois uma maior, você mantém a quinta justa, mas gera um acorde dito menor. Alterar a quinta já gera acordes bem mais estranhos pro ouvido. Ao invés disso, a primeira coisa que se fez para enriquecer os acordes (as harmonias, as verticalidades) foi acrescentar mais uma terça àquelas duas, gerando os acordes ditos de sétima; acordes de quatro notas. Até aqui, mesmo a modinha mais infame vai.
Com quatro notas você tem mais campo para variar. Simbolizando por um M a terça maior e por um m a menor, a coisa fica assim. Sempre mantendo a quinta justa, pra não doer, você pode ter acordes Mmm, MmM, mMM e mMm. Lembrem, são três intervalos: quatro notas. Aí veio um espírito de porco e percebeu que, dentre os esquisitos acordes de quinto grau alterado (nenhum deles esquematizado aí em cima por que, como eu disse e acabo de redizer, eles tendem a ser esquisitos) um deles, de esquema mmm, tinha uma particularidade. Ele é o acorde diminuto! Aleluia!
Mas, antes de falarmos da particularidade do acorde diminuto (mais de uma, na verdade) vale outra pequena digressão.
A harmonia ocidental tradicional, assim como boa parte do resto dos elementos da música, sempre se definiu em torno de um movimento de tensão e relaxamento. Tipo trapézio. Você prende o fôlego da audiência e depois dá um suspiro de presente. Bem simplinho: se eu estou o tempo todo em dó maior e, de repente, entro com um acorde de si, teu ouvido vai ficar gritando que nem louco pedindo que eu volte pra dó (e um ouvido gritando não é uma coisa bonita nem de se ouvir nem de se ver). Ele quer resolução, relaxamento. O exemplo citado é simples porque, sendo o menor intervalo usualmente admitido, o semitom é a maior tensão melódica (entre notas simples), a maior tensão horizontal possível.
Pois bem, o acorde diminuto é o rei da tensão, o que faz dele uma ponte adorada pelos músicos. Pra ir de repouso a repouso, ele é uma tensão cômoda e versátil. Quer ver?
Primeiro, já ficou claro, acho, que ele é instável por si próprio. A quinta diminuída cuida disso. Além disso, como a gente mexeu na quinta, a sétima se aproximou demais da tônica (a nota fundamental). Enquanto que os outros acordes que eu mostrei tinham sétimas maiores ou menores (cinco ou cinco e meio tons), esse tem tipos uma sétima anã, que se chama sétima diminuta (quatro tons e meio). Ele é todo torto. Mais (e aqui vocês vão ter que acreditar em mim pra coisa não ficar muito longa) se você puser ele do ladinho de um outro acorde, maior ou menor, cuja tônica esteja a meio tom de distância DE QUALQUER DE SUAS NOTAS, você vai ver que todas as quatro notinhas do diminuto estão em relação de tensão com alguma nota do acorde vizinho! Daí a tensão perfeita que ele representa.
Mas o maioríssimo barato é o seguinte, e é o que explica as letras maiúsculas do parágrafo anterior: como os acordes são esquemas de relações, se você virar um deles de cabeça pra baixo, por exemplo, mudam as relações, muda a hierarquia, muda o acorde. Mas se vocês fizerem as continhas, vão ver que o diminuto é circular. Um tom e meio entre a tônica e a terça, um e meio entre a terça e a quinta, mais um meio entre a quinta e a sétima... e se eu andar mais um e meio? Vou dar na tônica oitavada! E o ciclo se fecha. Ou seja, não havendo obrigatoriedade de se manter o acorde com os pés no chão, já que ele é redondo, não há tônica! De onde quer que se comece a contar as relações serão as mesmas. Não há hierarquia. Cada acorde diminuto é, pois, quatro ao mesmo tempo! E, como eles envolvem quatro notas (e isso é ainda mais louco!) só existem três deles!!!!!!
Pensem bem. Eu quero ir de dó a sol. Aí resolvo usar um fá sustenido diminuto como ponte de tensão. Mas essa ponte é como que uma warp zone de videogame, e ela me permite, subindo ou descendo meio tom, seguir para nada menos que dezesseis tonalidades diferentes, entre maiores e menores, acima ou abaixo dela em meio tom!
Não é lindo? E tudo é unicamente abstrato e matemático. E o ouvido vai ler aquele diminuto como um fá sustenido diminuto se eu for pra sol, como um ré sustenido se eu for pra mi. E vai funcionar. Ele, por si, como qualquer outro acorde, não é nada. Em relação ele se torna muitas coisas...