Sunday, July 24, 2005

Outras hiléias

Amigos, cabou.

Este blog chega, algo merencoriamente, a seu merencório fim.

Sério, na boa. Felizinho.
Acho que esta prestigiosa coluna começou em 2000. Não lembro direito. Mas o fato é que nesses anos, em três endereços diferentes, construímos todo um mundo de relações construtivas! E meus três leitores continuaram fiéis, apesar de mudanças no elenco (nada mais soube da Renata e conto agora com LZ, o vingador mascarado).
Recebi nesta semana um convite de um cara pra manter uma coluna em uma revista eletrônica (www.cronópios.com.br: se vocês são mais ligados que eu já devem conhecer, é coisa bem bonita, com uma lista de contribuidores tão séria que só se verá levemente deteriorada pela minha presença). Aí pedi pra ele se eu podia levar o lapão pra lá e, tudo resolvido, lá estarei.
Não sei direito quando entra no ar o primeiro texto, pois eu mesmo me atrasei em mandar umas coisas que ele me pediu, mas acredito que em algum momento entre hoje e domingo que vem vocês já possam ir até lá, ficar pasmados com o dizáine, clicar em colunistas, e depois em mim.
Cliquem-me!
Espero poder ser capaz de verificar um fabuloso incremento de três visitas nos registros dos caras.
E, ah, a coluna lá deve ser quinzenal.
E, ah, continuem visitando Viva Nosostros!
Saúdes
se vemos por lá

Sunday, July 17, 2005

I, me, mine

Essa semana li um texto daquele Contardo Calligari (Calligaris?) que me deixou bem impressionado. Eu nem costumo ler a coluna desse cara, como minha ignorância do nome dele deixa bem claro. Mas fui ver porque se tratava de coisas sobre terrorismo e o mundo árabe, e eu imaginava o que iria encontrar, e aparentemente gosto de sofrer ao ver minhas piores expectativas confirmadas.
Odeio textos edwardsaidianos que exploram complexos de culpa ocidentais para expor as verdadeiras razões por trás dos ataques. E eles são o mais freqüente, ao menos na Folha. (Aliás, vale dizer [em época de efemérides sartrianas, em que as pessoas andam reavaliando a eventual decadência da influência do vesguinho na cultura ocidental] que poucos pensadores parecem ter tido uma decadência post-mortem tão grande quanto a que recebeu Said depois de sua morte: não paro de ver textos de refutação na imprensa...)
Deixemos claro, o sistema colonial europeu-nortamericano promoveu o diabo na África e, também, no Oriente Médio (quem não acredita ou precisa de mais confirmação só dê uma olhada naquele "Todos os homens do xá", que meu brodinho não cansa de recomendar). E é óbvio que eles terão de colher conseqüências dessas medidas. Por outr lado, há que se dizer claramente que, malgrado as influências americanas sobre Sadam e Bin Laden, por exemplo, os ataques em Londres ou este último atentado no Iraque são obra de malucos obscurantistas perigosos. Não há camiseta de Che Guevara, não há diabolismo Bushiano que resolva este elemento da equação.
A bem da verdade, é perigosíssimo o uso que certa parte da imprensa ocidental como que autoriza, desse legítimo complexo de culpa (ou complexo de legítima culpa) para corroborar uma eterna imagem de espoliação e reação legítima ao uso da força, com mais força.
O texto do seu Contardo começava citando um intelectual italiano, cujo eu não me lembro o nome do qual (e sou preguiçoso demais para ir procurar) que dizia que um povo não pode sequer começar a compreender sua história se ele não se mostrar disposto a lê-la como autobiografia. Dizia ele que esse seria um processo muito semelhante ao da epifania psicanalítica: é preciso parar de gemer e reclamar dos traumas e castrações sofridos, é preciso parar de imputar responsabilidades e de agir responsivamente justificando seus procedimentos com base em uma imagem de condicionamente irrevogável.
Enquanto, dizia ele, os povos do oriente médio, ou a África, não se dispuserem a conceber sua história como autobiografia responsável, as portas estarão abertas para que se "justifiquem" as ações de maníacos medievais.
*
A menção à África no parágrafo anterior, vem, aliás, da leitura recente de um outro texto (esse recomendado pelo meu irmão): uma entrevista de um economista queniano que dizia "pelo amor de Deus, parem de ajudar a África", em um apelo para que a Europa e os Estados Unidos (mais uma vez movidos por infindos complexos de culpa que encontram paliativos imediatos em caridade de curto prazo perpetuamente renovável) deixassem a África se erguer por suas pernas, permitissem (abortando um sistema que pouco mais faz que engessar o desenvolvimento eternizando a dependência: a África cumpriria assim sua função de depósito de culpas e "boasintenções" do assisntencialismo ocidental, dando sono tranqüilo a todos nós) que se erguesse uma infra-estrutura autônoma, deixassem que a vida do continente africano se formasse como autobiografia.
Dizia ele, "vocês podem não se dar conta disso, mas nós já estávamos lá antes de vocês chegarem".
Tenho dito

Monday, July 11, 2005

Thomas

Novamente eu lembro o personagem do grandissimenorme Nanni Moretti em Aprile: é preciso que todos saibam.
Pois falemos de música. Eu gosto muito de música. Já pensei mesmo, seriamente, em viver como profissional, conservatório e tudo. Foi só um tendão da minha mão esquerda que não quis. Ando em uma fase de mais um grau de aposentadoria porque, depois que quebrei um dedo da minha mão direita no ano passado (em um acidente pra lá de imbecil) não voltei a tocar violão.
Mas ouvir música é outra coisa, né?
E a gente tem fases. Até o ano passado eu estava só ouvindo rock (e só bandas estranjas). Aí, devagar, devagar, fui voltando a uma fase que tinha deixado mais de lado havia uns sete anos, acho. E resgatei minha coleção de música erudita.
Na época meu grande barato era o barroco. O velho Bach. Todas as minha senhas padrão (de imeio, de banco mesmo) são cifras bachianas (nem tentem acessar meus fundos líquidos: as cifras são muito inventivas). É uma marca. Hoje, se fossem inventadas hoje, elas seriam joyceanas.
Continuo não dando muita bola para o século dezoito pós-bach e as estripulias do dezenove. A música volta a me interessar lá pelos anos vinte. E é pra isso que eu estou aqui hoje, pra dar dicas procês de música erudita modernista e recente. Coisas que valem toda a pena. E nem vou mencionar Stravisnkis, Pendereckis, Boulezs, Stockhausens, Berios e Nonos, Schoenbergs, Bergs, Weberns... Esses são os grandões. Vou falar mais de três ou quatro caras um pouco menos conhecidos e, em diversos sentidos, mais palatáveis que alguns desses aí (mas não pensem que os impalatáveis não são legais: eu me despenquei daqui até São Paulo no ano passado só pra ver o Penderecki reger a Osesp).
O negócio, afinal, é que a aceitação mais larga anda sempre coisa de setenta, cinqüenta anos atrasada. E come pelas beiradas. O senso comum a respeito dos “grandes nomes” da música erudita vai até onde? Ravel? Orff? Stravinski e Schoenberg talvez, os dois nomes centrais do século vinte.
Mas tem tanta coisa a mais.
Como eu disse, eu reconheço que um diletante tenha dificuldade em gostar, de saída, de Nono ou Berio. Mas acho que dá. E vejam os meus caras de hoje.
Antheil. Um ultra-modernista que estreou seu Balé Mecânico em Paris, naquilo que Sylvia Beach (a famosa dona da famosa livraria Shakespeare and Company) chamou de “o evento mais importante dos anos vinte”, com presença de Pound, Satie, Duchamp, Man Ray, Joyce. E a obra é divertidíssima. Estreou em versão para pequena orquestra, pianola e motores de avião. Ninguém ouviu a música na estréia, tamanho o barulho de vaias e xingamentos aos vaiadores. Mas é muito animado, divertido, inventivo e colorido. Mais tarde (ele tinha 23 anos na ocasião) ele escreveu coisas mais conservadoras (muito vilalôbicas pro nosso ouvido), mas ainda bem interessantes. Qualquer um pode ouvir.
Nancarrow. Um cara que eu ainda nem consegui ouvir direito. Sujeito muito louco que foi expatriado dos USA por ter lutado a guerra civil espanhola, se enfurnou no México e se recusava a sair de lá até pra ficar famoso. Recusava convites, encomendas, honras. Escreveu o grosso da sua obra (pequena) para pianola. Ainda estou tomando coragem de mandar importar o álbum quíntuplo, mas o que eu ouvi é lindo. (André, essa é especial. Tente achar na Amazon um disco que tem ele e o Antheil e ouça um Blues dele pra piano).
Schinittke. O santo padroeiro, na minha modesta, de toda a música erudita recente que se ressente da obrigação de ser seriosa, melancólica e sofrida. Muito bom humor. Muita paródia, muita diversão. Recomendo, paradoxalmente, o quinteto que ele escreveu como réquiem para sua mãe. Nenhum fã de Tom Waits com ouvidos abertos pode ficar imune àquela valsinha. (A Osesp toca ainda esse ano seu lindo concerto para viola. Corram)
Adès. Hoje, pra mim, virou O cara. Um inglês. Quem diria.
A Inglaterra, que na música pop é rainha, meio que só produziu dois compositores até hoje: Purcell e Britten (eles querem convencer o mundo de que Elgar seria o terceiro). Aí vem esse bostinha e, em 1993, com vinte aninhos, vira notícia. Ganha tudo que é concurso. Pra vocês terem uma idéia, para coroar sua polêmica escolha como regente da Filarmônica de Berlim, Simon Rattle abriu seu primeiro concerto com a mini-sinfonia Asyla, de Adés, que tem tudo pra virar clássico; a Sagração da primavera do século vinte e um. That’s a statement.
Mesmo pra quem está acostumado (e talvez principalmente pra esses) com as ditas vanguardas, trata-se de música muito, muito nova. Você ouve os ecos de Stravinski, de Schnittke, do barroco francês, mas é tudo muito original. As sonoridades são diferentes (até os violinos dele são estranhos) as formas são interessantes, ele não tem escrúpulo de soar “bonito” no sentido convencional, ele não tem escrúpulo de soar “viril”, como disse meu irmão.
Na primeira vez em que eu ouvi o cara, procês terem uma idéia, me deixei levar pelo instinto normal de encontrar semelhanças, influências, e não conseguia deixar de pensar em um nome: Adrian Leverkühn, o personagem do Doutor Fausto, de Thomas Mann. Adès, definitivamente, não existe.

Sunday, June 26, 2005

Ode ao acorde diminuto

Tudo isso é algo simplificado. Vou tentar fazer curtinho.
Primeiro de tudo: a música é um sistema de valores puros. Nada tem valor por si só. Tudo tem valor enquanto relação. Uma bolinha em uma partitura não é nada até que se lhe ponha uma clave, uma chave de leitura. Uma figura de tempo não vale tantos milissegundos: vale metade de uma outra e o dobro de ainda outra. Uma nota não é bonita ou feia: duas juntas sim, simultânea ou consecutivamente... E mesmo que você possa dizer que uma mesma nota, emitida por um oboé ou um acordeão possa, sim, soar bem ou mal em um caso ou no outro, você está respondendo às diferentes séries harmônicas (elementos constituintes do que registramos como notas isoladas) de cada um dos instrumentos: relações. O que faz um intervalo, digamos, de terça maior não é o fato de ele compreender um dó e um mi, mas sim o de ele compreender um intervalo de dois tons, entre quaisquer das notas.
Mas o que são tons? Desde o século dezoito vigora uma convenção que, bem ou mal, rege boa parte da música até hoje, com exceção de certa música erudita da metade do XX pra frente e de certa música popular (como o blues) que nunca deu tanta bola para ela. Essa convenção divide o contínuo dos sons registrados pelo ouvido humano em doze notas: dó, dó sustenido, ré, ré sustenido, mi, fá, fá sustenido, sol, sol sustenido, lá, lá sustenido, si. E o dó de novo. Deixemos de lado a explicação para a ausência de mis e sis sustenidos, e acrescentemos aqui que, para nossos fins, vale sempre o mesmo dizer dó sustenido ou ré bemol. Sustenido sobe, bemol desce. A isso se chamou temperamento da escala: igualar os sustenidos e bemóis. O Cravo bem temperado do velho Bach foi o primeiro grande monumento do sistema. Agora, uma explicação a gente não pode pular. Por que depois do si (tudo bem que não tenha si sustenido) não vem, digamos, um flum? Por que repetir tudo? Aí a explicação é fisicamente singela. Todos os intervalos de uma oitava, ou seja, os intervalos entre notas de mesmo nome, têm uma característica comum: as freqüências das notas se encontram em uma relação de 1:2. Uma é a metade, exatamente, da outra. Daí as doze notas. Separadas por meio tom cada uma.
Acordes, por sua vez, são conjuntos de, pelo menos, três notas, tipicamente executadas simultaneamente, ou verticalmente, como se diz na música. Os dois acordes mais comuns são o maior e o menor. Um acorde maior tem as seguintes relações: Dois tons entre a primeira e a terceira notas e um tom e meio entre a terceira e a quinta. O que chamamos de uma terça maior e uma terça menor. Elas juntas (três tons e meio) formam uma quinta justa, o intervalo mais consonante de todos. Se você troca a ordem das terças, põe uma menor e depois uma maior, você mantém a quinta justa, mas gera um acorde dito menor. Alterar a quinta já gera acordes bem mais estranhos pro ouvido. Ao invés disso, a primeira coisa que se fez para enriquecer os acordes (as harmonias, as verticalidades) foi acrescentar mais uma terça àquelas duas, gerando os acordes ditos de sétima; acordes de quatro notas. Até aqui, mesmo a modinha mais infame vai.
Com quatro notas você tem mais campo para variar. Simbolizando por um M a terça maior e por um m a menor, a coisa fica assim. Sempre mantendo a quinta justa, pra não doer, você pode ter acordes Mmm, MmM, mMM e mMm. Lembrem, são três intervalos: quatro notas. Aí veio um espírito de porco e percebeu que, dentre os esquisitos acordes de quinto grau alterado (nenhum deles esquematizado aí em cima por que, como eu disse e acabo de redizer, eles tendem a ser esquisitos) um deles, de esquema mmm, tinha uma particularidade. Ele é o acorde diminuto! Aleluia!
Mas, antes de falarmos da particularidade do acorde diminuto (mais de uma, na verdade) vale outra pequena digressão.
A harmonia ocidental tradicional, assim como boa parte do resto dos elementos da música, sempre se definiu em torno de um movimento de tensão e relaxamento. Tipo trapézio. Você prende o fôlego da audiência e depois dá um suspiro de presente. Bem simplinho: se eu estou o tempo todo em dó maior e, de repente, entro com um acorde de si, teu ouvido vai ficar gritando que nem louco pedindo que eu volte pra dó (e um ouvido gritando não é uma coisa bonita nem de se ouvir nem de se ver). Ele quer resolução, relaxamento. O exemplo citado é simples porque, sendo o menor intervalo usualmente admitido, o semitom é a maior tensão melódica (entre notas simples), a maior tensão horizontal possível.
Pois bem, o acorde diminuto é o rei da tensão, o que faz dele uma ponte adorada pelos músicos. Pra ir de repouso a repouso, ele é uma tensão cômoda e versátil. Quer ver?
Primeiro, já ficou claro, acho, que ele é instável por si próprio. A quinta diminuída cuida disso. Além disso, como a gente mexeu na quinta, a sétima se aproximou demais da tônica (a nota fundamental). Enquanto que os outros acordes que eu mostrei tinham sétimas maiores ou menores (cinco ou cinco e meio tons), esse tem tipos uma sétima anã, que se chama sétima diminuta (quatro tons e meio). Ele é todo torto. Mais (e aqui vocês vão ter que acreditar em mim pra coisa não ficar muito longa) se você puser ele do ladinho de um outro acorde, maior ou menor, cuja tônica esteja a meio tom de distância DE QUALQUER DE SUAS NOTAS, você vai ver que todas as quatro notinhas do diminuto estão em relação de tensão com alguma nota do acorde vizinho! Daí a tensão perfeita que ele representa.
Mas o maioríssimo barato é o seguinte, e é o que explica as letras maiúsculas do parágrafo anterior: como os acordes são esquemas de relações, se você virar um deles de cabeça pra baixo, por exemplo, mudam as relações, muda a hierarquia, muda o acorde. Mas se vocês fizerem as continhas, vão ver que o diminuto é circular. Um tom e meio entre a tônica e a terça, um e meio entre a terça e a quinta, mais um meio entre a quinta e a sétima... e se eu andar mais um e meio? Vou dar na tônica oitavada! E o ciclo se fecha. Ou seja, não havendo obrigatoriedade de se manter o acorde com os pés no chão, já que ele é redondo, não há tônica! De onde quer que se comece a contar as relações serão as mesmas. Não há hierarquia. Cada acorde diminuto é, pois, quatro ao mesmo tempo! E, como eles envolvem quatro notas (e isso é ainda mais louco!) só existem três deles!!!!!!
Pensem bem. Eu quero ir de dó a sol. Aí resolvo usar um fá sustenido diminuto como ponte de tensão. Mas essa ponte é como que uma warp zone de videogame, e ela me permite, subindo ou descendo meio tom, seguir para nada menos que dezesseis tonalidades diferentes, entre maiores e menores, acima ou abaixo dela em meio tom!
Não é lindo? E tudo é unicamente abstrato e matemático. E o ouvido vai ler aquele diminuto como um fá sustenido diminuto se eu for pra sol, como um ré sustenido se eu for pra mi. E vai funcionar. Ele, por si, como qualquer outro acorde, não é nada. Em relação ele se torna muitas coisas...

Sunday, June 19, 2005

André

Estou ficando velho junto com você, Andreiusha. Eu que sou coisa de semanas mais novo. E estou ficando chato igual a você. Daqui a pouco vou estar assinando embaixo de manifestos adornianos.
Aos que não são o André, digo de maneira mais direta. Do meu ponto de vista adolescente e imaturo, estou ficando tristemente triste. O roquenrol feito hoje já não me diz nada. Patavinas. Só compro discos de bandas velhas que fizeram sentido antes e de música erudita. Acredito cada vez mais em indústrias culturais como única razão e condicionamento de gostos no mundo pop. Me ressinto cada vez mais do populacho. (Deus meu, André, eu já estou parecendo é o Polzonoff!)
E isso tudo pra um cara que gostava de Toy Dolls, uma banda punk que cantava nonsense com voz de bonecos...
Mas a bem da verdade eu ainda gosto de Toy Dolls. Ainda há salvação.
No meu plano de me tornar um velho ranheta, só me incomoda isso: ter de dar um pouco (só um pouquinho, não abuse) de razão ao André, depois de treze anos de discussões acaloradas.. Mas isso é coerente, ser um velho ranheta envolve ser turrão. Não posso ceder a razão sem dor.

E tudo isso, caros fottutissimi amici, pra dizer que eu, que nunca suportei axé, que me retorci de desgosto quando vi o primeiro vídeo da Daniella Mercury na MTV, hoje me encontro em situação mais desesperadora. Me vejo mais ilhado pela bosta.
Porque não há um só lugar em que a gente não entre e em que ela não esteja. Tem tempo já que eu vinha me referindo a ela como a onipresente Ivete Sangalo, mas a coisa está passando mesmo dos limites da ubiqüidade, ou meu mau humor é que está.
Você entra no supermercado, estão tocando o dvd dela, você vai ao shopping, lá está ela, você liga a tevê, ela está em um show ao vivo reprisado ao morto centenas de milhares de vezes, você passa diante de uma loja na calçada estão estuprando os teus tímpanos com a meleca do pererê!

Certa vez assisti a uma palestra do maestro Colarusso sobre a música do século XVIII. Ele lembrava que um diferencial de que freqüentemente nos esquecíamos era o fato de que aquelas pessoas não viviam cercadas por música; de que, nas palavras dele “para se ouvir música era preciso que alguém sentasse ao piano e fizesse clang”.
Hoje penso mais é que eles não eram invadidos por música que não queriam. Fico me sentindo, quando me empurram Ivete Sangalo gorja abaixo, como o Alex de Laranja Mecânica, lembram? Para ele o mais difícil do sistema Ludovico não era assistir às cenas de violência, isso era um castigo que ele de fato merecia por sua iniqüidade, o problema era dessacralizarem Beethoven usando a nona sinfonia como música de fundo para a barbárie.
E eu com Euterpe. A estupidez que a gente é obrigado a ver eu até aceito imposta. Mas precisava ter trilha sonora?
Precisava deturpar o sistema abstrato mais perfeito que o homem já criou?
Não dava pra deixar a música de fora?

Semana que vem, ode ao acorde diminuto.

Sunday, June 12, 2005

Blondia

Tem semanas que são obrigatórias.
Nessa eu não posso escolher o assunto. Quinta-feira próchima e vindoira é dia de Bloomsday, e tenho uma obrigação quase que profissional da falar do assunto.
Então, pra quem não sabe, o Bloomsday ganha esse nome graças a Leopold Bloom, personagem principal (e sensacional) do “Ulysses” de James Joyce, publicado em fevereiro de 1922. Como toda a ação do dito livro se desenrola no dia 16 de junho de 1904 (a bem da verdade entrando pela madrugada do 17), a partir dos anos cinqüenta o genialíssimo Flann O’Brien começou a instituir o costume de se comemorar a data com festividades joyceanas. A história, aliás, do primeiro Bloomsday nessa tradição (o próprio Joyce, morto em 41, chegou a comemorar alguns com amigos) já em bem divertida, muito irlandesa e muito Flann O’Brien: pois ele se juntou com uns amigos e saiu, a cavalo, para fazer uma ronda por Dublin, passando por pontos mencionados no livro e se detendo aqui e ali para tomar um goró. A ronda não passou dos primeiros pubs, e acabou com todo mundo da na sarjeta.
Hoje, em todo o mundo tem lá uns malucos que se reúnem pra celebrar a data. Tomando café da manhã em praça pública, com o mesmo cardápio do desjejum do senhor Bloom, lendo trechos de Joyce, representando cenas do livro, cantando música irlandesa, enchendo os canecos até não mais poder.
Em curitiba estamos indo acho que pro nono ano...? Ivan, me corrija.
Sempre por iniciativa do centro feminino paranaense de cultura. Nesse ano a coisa, como no ano passado, vai acontecer na Fnac, lá no shops barigüi. Vai ter música irlandesa, música lírica citada no romance (o adultério de Molly Bloom, ponto central daquele dia, se consuma, por assim dizer, ao som de duas árias), leitura de poemas e espumante de graça!
Apareeeçam!
A partir das 19 horas. Neguinho vai estar por lá também distribuindo flampetos de inscrição em um cursinho Ulysses de três sábados, ao encargo de eu mesmo e daquele Ivan (Justen Santana) mencionado logo ali. No dia dezoito o Ivan fala de Joyce, vida e obra; no vinte e cinco falo eu sobre o Ulisses propriamente dito; e no 32 (rarrá) passamos o filme Bloom (Irlanda, 2003) uma adaptação do livro de Joyce, com comentário dos dois que vos falaram. Vai ser legal, eu acho.
Apareeeçam!
Recomendo mesmo o festerê fnaquiano (Embora eu, neste ano, não vá estar por lá: só dei parpite na organização). Não sei dizer, no entanto, se o grande atrativo do Bloomsday deste ano estará acessível lá. Dona Bernardina Pinheiro da Silveria, grande figura, 83 anos, lança nova tradução do livro! Já li pedacinhos e ela tem tudo para ser muuuito melhor que a que temos no mercado. Pode ser que a Fnac daqui já tenha no dia..
Além dessa super efeméride, vale registrar para os maníacos por coincidências (e todo fã de Joyce ho he) que neste ano o 16 de junho cai numa quinta-feira, como em 1904, e que, neste dia, cai também o páreo da Gold Cup de hipismo, que tem considerável importância no livro.
Saúdes
E não deixem de ler o livro por causa da fama de difícil. A nova tradução da dona Bernardina pode ser um bom argumento novo. E o cursinho ivantânico pode dar uma bela mão. O livro dá trabalho, mas paga a pena.
Hasta.

Monday, June 06, 2005

Razão...

"A causa da desregulagem de tudo, a causa do desequilíbrio de tudo, é por ter terminado a fase do pensamento. Porque sabem perfeitamente que não há efeito sem causa. A causa desse grande desequilíbrio mundial é o término do pensamento.
E para que encontrem o equilíbrio de tudo, têm que conhecer a natureza e a fase natural da natureza, que é a FASE RACIONAL, a fase do raciocínio.
O pensamento parou de funcionar, porque terminou a sua fase; pararam as mentes, parou a regulagem e ficaram desregulados e depois de desregulados, a violência.
A causa da violência é a paralisação do pensamento, por a fase do pensamento ter terminado.
Enquanto o pensaento estava em vigor, dentro de sua fase, todos mais ou menos regulados. Depois que a fase terminou, todos completamente desregulados, porque na matéria tudo é assim: tudo que tem princípio, tem fim.
E para haver a normalização e o equilíbrio de todos e de tudo, tem que conhecer a fase natural da natureza, que está em vigor, a FASE RACIONAL.
Terminou a função do pensamento, nascendo na natureza, por circunstâncias naturais de sua evolução, a FASE RACIONAL.
Para da FASE RACIONAL haver a mudança de todos para o seu verdadeiro mundo, o MUNDO RACIONAL.
E por isso, o MUNDO RACIONAL é o mundo do raciocínio, o mundo do raciocínio é o MUNDO RACIONAL.
Terminou a fase do pensamento, daí gerou a violência.
A violência gerou mundialmente, por ter terminado a fase do pensamento.
O pensamento parou e gerou a violência.
Se o pensamento estivesse em função, o equilíbrio seria mais ou menos.
[...]
O QUE É CULTURA RACIONAL
É o conhecimento da origem do ser humano. De onde ele veio, como veio, por que veio eo retorno à sua origem, mostrando como o homem voltará ao seu estado natural de ser Racional puro, limpo e perfeito. Tudo isto através das mensagens do RACIONAL SUPERIOR, um Ser Extraterreno, publicadas nos Livros "UNIVERSO EM DESENCANTO"."

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Para quem por acaso não saiba, dia 3 foi o dia da cultura Racional. A avenida Mariano Torres estava trancada por um grupo de velhinhos de branco que seguiam estandardes dos estados membros da federação e uma bandinha militar. Entre outras verdades, eles me informaram também que os livros UNIVERSO EM DESENCANTO se encontram à venda na alameda doutor Carlos de Carvalho, 156, 2o. andar, conjunto 03. E em outras nove cidades do Brasil.

Es muele... o quieres más...