Sunday, December 19, 2004

DFW

Para os texanos, e ao menos para os guitarristas, a sigla acima quer dizer Dallas-Fort Worth, e se refere a uma área conurbada do estado que produziu Albert King e Stevie Ray Vaughan.
David Foster Wallace, graças ao nome compridão para os padrões americanos e a um talento muito acima da média, está dando um jeito de colocar o acrônimo da cabeça de todo mundo.
O cara (muito novo, 42, hoje.) já era conhecido nos anos oitenta, por causa de um romance de estréia, The broom of the system, que lhe rendeu em geral elogios extraordinários. De lá pra cá ele escreveu contos e ensaios, até que, depois de um silêncio de seis anos, em 1996 ele terminou de escrever Infinite jest, o livro que lhe deu a reputação que hoje tem. O guru da nova geração de escritores.
Gurus tendem a ser exóticos, e esse não é bolinho. Costuma posar para fotos promocionais com uma bandana florida, de bermudas e com um cabelão pelos ombros, e dá aulas mascando tabaco e cuspindo em uma caneca de vidro. Pelos comentários dos alunos na internet (ah, a internet...) ele parece ser mais temido que professor de filologia românica!
Gurus tendem a ser humilhantemente superiores. Eu li só alguns desses caras da nova geração. Li os irlandeses, boa parte dos ingleses (gente como Will Self ainda conta como revelação?) e alguns americanos. E esse cara está mesmo alguns furos acima. Até pela pretensão. Alguém que se determina a escrever um calhamaço de 1079 páginas corre sempre o risco de, ou cair no oblívio imediato (título aliás de seu último livro, Oblivion), ou virar mito.
É lógico que, depois de encarar a tarefa de lançar o treco, até os editores apostaram nas dimensões do catatau como estratégia. O novo Thomas Pynchon, era a comparação imediata. Mas, ao livro.
Que é duca. Trata, entre muitas outras coisas, da história da família Incandenza. O pai, cineasta experimental, a mãe, diretora de uma academia de tênis, e os irmãos, Orin, tenista frustrado e hoje punter de futebol americano, Mario, uma criatura deformada e algo limitada em todos os campos, e Hal, o herói, que é um prodígio do tênis juvenil, na academia da mamãe, cada vez mais viciado em maconha. A academia, que fica no alto de um morro, proporciona todo um elenco de esquisitos. Um guru que levita sobre os armários do vestiário e se alimenta de suor, um diretor fascista, um prodígio canadense, Pemulis, um megadito!, um guri que fica grudado em uma janela congelada, uma tenista cega superdotada... todos eles deformados, de alguma maneira.
Descendo a encosta fica uma casa de recuperação para drogados. Don Gately, a contraparte de Hal, que engole qualquer coisa que se possa arranjar em um laboratório e seus colegas internos. Gente que gosta de prender gatinhos em sacos plásticos e socá-los contra muros, gente que usa véus por fazer parte de uma sociedade de gente horrenda ou horrendamente deformada...
Tudo isso apresentado em um futuro remoto (2019, calcula um dos anotadores que eu consultei) em que a América do Norte está unida como uma só nação, a ONAN (organização das nações da NA), onde os líderes do Canadá e do México são secretários-títeres do presidente americano, uma espécie de cruza de Reagan e Michael Jackson, e em que uma larga parcela dos EUA foi cedida ao Canadá apenas para ser transformada em cemitério de dejetos tóxicos (a Concavidade) que são arremessados até lá por gigantescas catapultas. O lixo já gerou monstros como hamsters selvagens que percorrem as pradarias em busca de destruição.
Nesta paisagem, acredita-se que o pai de Hal tenha passado seus últimos anos (de uma carreira que começou no tênis, passou para a física teórica e prática e acabou no cinema de vanguarda) criando um filme que seria o entretenimento definitivo, tão divertido que causaria a morte do espectador, que se recusaria sair da frente da tela enternamente...
A busca por esse cartucho mobiliza o Escritório de Serviços Não-Especificados da ONAN e diversos grupelhos de resistência Canadense, entre os quais os Assassins des Fauteils Rollants, os temidos assassinos de cadeiras-de-rodas. Rémy Marathe e Hugh/Helen Steeply, representantes irrespectivamente de cada uma das duas facções, tem um diálogo no alto de uma montanha que permeia boa parte do livro...
Putz...
O livro é muito divertido e, por vezes, muito, muito doloroso. Trata de muitos aleijões em um mundo muito competitivo. Hal parece ser o primeiro fruto bem-sucedido de uma geração de frustrados e abortados, que começa por um avô que, em um mergulho em quadra, deixou no chão um rastro primeiro vermelho e depois branco à medida que seus joelhos se lixavam no cimento até o osso... Mas isso só pra quem não prestou atenção na cronologia do primeiro capítulo... Mas tudo é escavado. O calendário da ONAN, por exemplo, foi vendido para patrocinadores, que dão nome a cada ano. Assim você leva quase duzentas páginas para entender qual ano vem depois de qual, já que os números não são mais usados... Putz.
A imprensa americana tende a tratá-lo como uma análise da escravidão do cidadão atual, assujeitado à mídia e a uma infinda busca por diversão, na televisão ou em drogas.
Eu, que tinha me prometido escrever menos extensamente, digo só que é um livro daqueles que você não vai ver igual tão cedo. E um caso raríssimo de um livro deste tamanho que você tem vontade de reler assim que acaba.
Semana que vem, Shrek e Joyce.
Saúdes
Caetano

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