Sunday, March 20, 2005

caetano vs Caetano

Vi um filme essa semana em que a protagonista, depois de ouvir de sua mãe que ela não era normal, responde: ninguém é normal, mãe. Isso fez voltar a minha oca cabecinha uma antiga bissessão. Trata-se da citadíssima frase de meu epônimo veloso, que diz que, de perto, ninguém é normal. Bobagem.
Primeiro, vejamos. Logicamente.
Para que alguém possa enunciar filosoficamente (o que quer dizer sustentar com algum rigor argumentativo) coisa semelhante, ele deve concordar com algumas cositas.
Que, primeiro, o enunciador se julga capaz de reconhecer e detectar algo que ele identifica com um padrão de normalidade. Ora, normalidade não pode a princípio ser algo instituído individualmente, a não ser pelos Pol Pots da vida. Logo, o indivíduo se julga capaz de reconhecer acuradamente um padrão reconhecido por uma maioria como o padrão de normalidade, senão reconhecido por todo mundo.
Logo, de saída, o enunciador se anuncia, logicamente, ele mesmo normal.
Mas isso ainda é de menos.
Ora, normalidade seria o comportamento não-marcado, não-desviante do indivíduo típico (e “medíocre” no sentido pejorativo da coisa, parece vir implicado a cada vez que alguém repete a frase). Mucho bien. Aqui é facílimo de percebermos a inconsistência silogística da coisa. Ninguém é o indivíduo mediano, medíocre, típico.
Ora, se ninguém é típico, a atipicidade é típica e, portanto, normal.
Logo, todo mundo é normal se aceitamos que o desvio é a regra.
Sabe como?
Usualmente quem diz uma coisa dessas (retomo agora mais avaliativamente o que vinha dizendo lá em cima) parece se acreditar não apenas desligado dos critérios avaliativos e expectativos de alguma sociedade que é, em tudo e por tudo, exterior a ele, como também se julgar capaz de informar a essa sociedade que ela se fundamenta em uma ilusão. Uma ilusão ou uma hipocrisia de normalidade infundada.
Meu algumento aqui é que quem se pensa subversivo é na verdade vítima de preconceito ainda maior neste casinho.
O indivíduo está trabalhando, chauvinisticamente, contra uma noção que, nem ele mesmo percebe, é de definição tão impossível que reduz seu bordãozinho à inânia argumentativa.
Com a melhor das esperança, podemos pensar ter visto a tal da frase sendo usada não crítica ou agudamente, mas apenas “subversiva” e “irreverentemente”, contra a mesma mediocridade, por pessoas para quem os desvios representam valores positivamente avaliáveis.
E, para elas, de perto todos têm um pouco de loucos, o que os torna muuuuito mais interessantes.
Não.

Todos são igualmente desviantes. Concordo.
Isso é o que nos salva da medianidade típica? Lhufas. Que medianidade típica senão esta?
Todos são igualmente desviantes. É essa nossa mediocridade.
Logo,
De perto, bem de perto, somos todos absolutamente normais. É só de longe, idealizados, que parecemos estranhos e interessantes.

Gente é feita pra trilhar.

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