caetano vs Caetano
Vi um filme essa semana em que a protagonista, depois de ouvir de sua mãe que ela não era normal, responde: ninguém é normal, mãe. Isso fez voltar a minha oca cabecinha uma antiga bissessão. Trata-se da citadíssima frase de meu epônimo veloso, que diz que, de perto, ninguém é normal. Bobagem.
Primeiro, vejamos. Logicamente.
Para que alguém possa enunciar filosoficamente (o que quer dizer sustentar com algum rigor argumentativo) coisa semelhante, ele deve concordar com algumas cositas.
Que, primeiro, o enunciador se julga capaz de reconhecer e detectar algo que ele identifica com um padrão de normalidade. Ora, normalidade não pode a princípio ser algo instituído individualmente, a não ser pelos Pol Pots da vida. Logo, o indivíduo se julga capaz de reconhecer acuradamente um padrão reconhecido por uma maioria como o padrão de normalidade, senão reconhecido por todo mundo.
Logo, de saída, o enunciador se anuncia, logicamente, ele mesmo normal.
Mas isso ainda é de menos.
Ora, normalidade seria o comportamento não-marcado, não-desviante do indivíduo típico (e “medíocre” no sentido pejorativo da coisa, parece vir implicado a cada vez que alguém repete a frase). Mucho bien. Aqui é facílimo de percebermos a inconsistência silogística da coisa. Ninguém é o indivíduo mediano, medíocre, típico.
Ora, se ninguém é típico, a atipicidade é típica e, portanto, normal.
Logo, todo mundo é normal se aceitamos que o desvio é a regra.
Sabe como?
Usualmente quem diz uma coisa dessas (retomo agora mais avaliativamente o que vinha dizendo lá em cima) parece se acreditar não apenas desligado dos critérios avaliativos e expectativos de alguma sociedade que é, em tudo e por tudo, exterior a ele, como também se julgar capaz de informar a essa sociedade que ela se fundamenta em uma ilusão. Uma ilusão ou uma hipocrisia de normalidade infundada.
Meu algumento aqui é que quem se pensa subversivo é na verdade vítima de preconceito ainda maior neste casinho.
O indivíduo está trabalhando, chauvinisticamente, contra uma noção que, nem ele mesmo percebe, é de definição tão impossível que reduz seu bordãozinho à inânia argumentativa.
Com a melhor das esperança, podemos pensar ter visto a tal da frase sendo usada não crítica ou agudamente, mas apenas “subversiva” e “irreverentemente”, contra a mesma mediocridade, por pessoas para quem os desvios representam valores positivamente avaliáveis.
E, para elas, de perto todos têm um pouco de loucos, o que os torna muuuuito mais interessantes.
Não.
Todos são igualmente desviantes. Concordo.
Isso é o que nos salva da medianidade típica? Lhufas. Que medianidade típica senão esta?
Todos são igualmente desviantes. É essa nossa mediocridade.
Logo,
De perto, bem de perto, somos todos absolutamente normais. É só de longe, idealizados, que parecemos estranhos e interessantes.
Gente é feita pra trilhar.
Primeiro, vejamos. Logicamente.
Para que alguém possa enunciar filosoficamente (o que quer dizer sustentar com algum rigor argumentativo) coisa semelhante, ele deve concordar com algumas cositas.
Que, primeiro, o enunciador se julga capaz de reconhecer e detectar algo que ele identifica com um padrão de normalidade. Ora, normalidade não pode a princípio ser algo instituído individualmente, a não ser pelos Pol Pots da vida. Logo, o indivíduo se julga capaz de reconhecer acuradamente um padrão reconhecido por uma maioria como o padrão de normalidade, senão reconhecido por todo mundo.
Logo, de saída, o enunciador se anuncia, logicamente, ele mesmo normal.
Mas isso ainda é de menos.
Ora, normalidade seria o comportamento não-marcado, não-desviante do indivíduo típico (e “medíocre” no sentido pejorativo da coisa, parece vir implicado a cada vez que alguém repete a frase). Mucho bien. Aqui é facílimo de percebermos a inconsistência silogística da coisa. Ninguém é o indivíduo mediano, medíocre, típico.
Ora, se ninguém é típico, a atipicidade é típica e, portanto, normal.
Logo, todo mundo é normal se aceitamos que o desvio é a regra.
Sabe como?
Usualmente quem diz uma coisa dessas (retomo agora mais avaliativamente o que vinha dizendo lá em cima) parece se acreditar não apenas desligado dos critérios avaliativos e expectativos de alguma sociedade que é, em tudo e por tudo, exterior a ele, como também se julgar capaz de informar a essa sociedade que ela se fundamenta em uma ilusão. Uma ilusão ou uma hipocrisia de normalidade infundada.
Meu algumento aqui é que quem se pensa subversivo é na verdade vítima de preconceito ainda maior neste casinho.
O indivíduo está trabalhando, chauvinisticamente, contra uma noção que, nem ele mesmo percebe, é de definição tão impossível que reduz seu bordãozinho à inânia argumentativa.
Com a melhor das esperança, podemos pensar ter visto a tal da frase sendo usada não crítica ou agudamente, mas apenas “subversiva” e “irreverentemente”, contra a mesma mediocridade, por pessoas para quem os desvios representam valores positivamente avaliáveis.
E, para elas, de perto todos têm um pouco de loucos, o que os torna muuuuito mais interessantes.
Não.
Todos são igualmente desviantes. Concordo.
Isso é o que nos salva da medianidade típica? Lhufas. Que medianidade típica senão esta?
Todos são igualmente desviantes. É essa nossa mediocridade.
Logo,
De perto, bem de perto, somos todos absolutamente normais. É só de longe, idealizados, que parecemos estranhos e interessantes.
Gente é feita pra trilhar.

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