Sunday, March 27, 2005

Had we... and time

Semana passada Marcelo Gleiser escreveu um texto sobre o tempo. Meu mestrado trata do tema e, teressadim, fui dar uma olhada no que imaginava fossem novas disquisições de físico. Eis que senão quando, o que se me revela é um interessante argumento fisicolosófico, que destrincharei aqui cocês.
Ele dava o exemplo de fazer uma omelete a partir de determinado número de ovos para ilustrar aquilo que é verdadeiramente o busílis com o tempo, conforme percebido por nós: sua inexorabilidade unidirecional. Lembrem, ele é físico, pensa em fenômenos físicos.
A idéia é que, em teoria, é possível reverter um processo cronológico e, naquele caso, transformar a omelete em ovos. No entanto, tal reordenamento dependeria de tantas variáveis improváveis e de uma seqüência ainda tão mais improvável delas que o resultado, como possibilidade, é estatisticamente nulo. Diz ele, seria necessária a existência de um sistema ordenador de possibilidades praticamente ilimitadas. Poderosíssimo, sabe como?
(Há uma primeira idéia muito interessante já aí. A de que o tempo seria acima de tudo um agente desorganizador. Aquela idéia por trás do famigerado conceito de entropia, que reza que os sistemas tendem a buscar um aumento de desordem –as estrelas a explodir, os compostos orgânicos a se decompor – a interessante idéia de que o repouso, a estabilidade, tende a ser apenas uma propriedade do caos, da desordem: qualquer sistema organizado é instável por sua mesma organização, e tende a se degradar em partículas independes e não-hierarquizadas por qualquer estrutra.
O conceito de entropia saiu da física, para a biologia, para as teorias da comunicação, para a música de Ligeti, para o samba do crioulo doido. Mas a coisa é muito interessante.
Tudo tende ao repouso. E tudo tende à desordem.)
Para reverter a seta do tempo, portanto, seria preciso encontrarmos sistemas que fossem essencialmente organizadores, que impusessem ordem, que determinassem forma. Fisicamente, no mundo das leis da física, tal processo é, conforme descrito acima, habitante dos limites da impossibilidade, conquanto possível.
O passo interessante, sugerido já no texto de Gleiser, mas apenas sugerido, é a semiotização da questão.
Vejam só. A gente não pode pôr ordem no mundo e, portanto, não pode reverter ou anular o fluxo temporal (aquela entidade organizadora lá dos físicos só poderia ser a divindade.) Mas o fato é que o mundo físico, aquele das leis em que operam, graças!, os colegas do seu Gleiser, nos diz muito pouco, quase nenhum respeito. A gente não vive nele.
A gente vive é em uma representação semiótica (simbólica) daquele mundo. Mediada, para nós, por sistemas que constituímos e que nos apresentam uma leitura da realidade, uma versão da realidade possível, que é a em que vivemos, de fato.
O ser humano, dizia o seu Cassirer, é um animal simbólico. Podemos englobar o mundo, dar conta da realidade, por meio de nossos truquezinhos semióticos, que vão desde o singelo nomear de um objeto, um ser, uma realidade, à reelaboração desses elementos em outros sistemas organizados. O símbolo é algo que pode estar em algum lugar em que aquilo que ele representa não poderia estar, dizia Santo Agostinho. Neste caso, o símbolo pode estar dentro da nossa cacholinha (e já era nisso que pensava o Augusto), pode estar sob nosso controle, pode estar abaixo de nós.
Que diabos de outros sistemas organizados são esses, em que podemos revirar o mundo e virá-lo do avesso? Aí é que entra a noção de forma simbólica do seu Cassirer. E é sempre bom lembrar que ele usava “forma” em um sentido arkantiano específico em que a palavra quase seria melhor traduzida por “fôrma”.
Arte, mito, ciência, linguagem. Sistemas de que dispomos para, servindo-nos do princípio básico da representação semiótica (a simbolização, a significação.. e portanto todos eles dependem e frutificam em alguma medida da linguagem), reorganizar o mundo. Impor ordem ao caos que o tempo forma.
Quando concebo um sistema mitológico, ordeno até a criação do mundo, quando explico a gravidade como força ou como dobra, imponho ordem ao cosmo, quando Duchamp põe um urinol na parede e o nomeia de “A fonte”, ele o retira de sua realidade e põe em outra, quando o Anticristo (personagem do primeiro romance de David Foster Wallace) batiza seu telefone de “nódulo linfático”, pode dizer sem mentir a seu pai que não tem um telefone.
Vejam só se não é divertido.
Antes mesmo de pensarmos que a arte luta contra o tempo por tentar, digamos, imortalizar Alexandre o Grande ou Hamlet, podemos inferir que a bichinha o faz como condição intrínseca de seu “modus operandi”. Ela ordena. Ela enforma.
E ir contra o caos é ir contra o tempo.
Nesse sentido, pensar é lutar contra Cronos.
Talvez daí o fato de o tempo, para a humanidade, passar cada vez mais rápido!
Enfim..
Só mais uma: Plotino dizia que o tempo surgira quando a divindade se “apaixonou” pelo que não era divino e decaiu, deixou-se arrastar para o nosso mundo, afastando-se na eternidade e mergulhando em uma cadeia de conseqüências de extensão ilimitada e inescapável. Para ele, a divindade cometeu um erro, e se instaurou o caos...

2 Comments:

Blogger Éle-Zê said...

cara, vou ter que dar um tempo nos pensamentos pra gestar esses conceitos. ei, sabias que existe um filme chamado Nora, que é baseado na biografia da esposa do Joyce? inclusive o Ewan McGregor faz papel do JJ.

March 29, 2005 10:28 AM  
Blogger caetano waldrigues galindo said...

sabia sim. vi o devedê pra vender em londra, mas eu não tinha denheiro. o cristovão já viu, e diz que é bacaninha..

March 30, 2005 5:39 AM  

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