Meras achâncias
Meu irmão me pede que escreva um texto sobre o seguinte. Seguinte, será que a gente pode concordar com os eternos velhinhos que hão em nós e que insestem em dizer coisas como o mundo não é mais aquele, no que se refere a literatura...? Será que existem, hoje, em atividade, autores que daqui a cinqüenta anos nós equipararemos aos realmente fodões...? Quem que são eles...?
Primeiro, tenho de informar a vosco e ao meu hermanito que eu não sou piciricas de profissional no mundo literário. Por que que eu, no entanto, entantejo e me semeto a escrever, afinal. Negosseguinte: como algumas gentes sabem, eu estou tem já dois anos e meio enfurnado em um doutorado sobre Joyce (figurão dos figurões..) e, em algum momento do ano passado, me dei conta de que o que certas pessoas me diziam passava a ser verdade: eu estava me transformando em um crente xiita do joyceanismo. Sendo assim, resolvi me desintoxicar de Joyce e, para tanto, me enfiei em ler alguma ficção recente que pudesse desfazer a impressão de que tudo acabava com Joyce. Assim, ao menos no campo da literatura de língua inglesa, tenho alguma noção...
Então, palpites.
Um. Eu nunca tendo a acreditar nessas “decadências”. No entanto, temos que levar em conta que, apesar do que pra gente é ainda uma absoluta centralidade, o romance como nós os conhecemos é um fenômeno recente e que pode, de fato, deixar de ser culturalmente relevante em algum momento. No entanto, nós vivemos em tempos em que a possibilidade de acesso a formas de cultura/entretenimento e a variedade são tão grandes que existe, por exemplo, um mundo rockabilly com mercados e cultos, um mundo de revival de swing, uma cultura de haicai com seus ícones... O romance não deve desaparecer. Pode diminuir seu espaço, mas, portanto, a pergunta do fratello continua válida.
Dois. Não sou profissional, não sou crítico, não tenho cultura nem colhão suficientes pra sair dizendo quem vai “permanecer” e quem não vai. E será esse o critério? Nos anos quarenta, alguns entendidos em literatura de língua inglesa poderiam apostar muitas fichas na “permanência”, digamos, de Joyce Cary. Que hoje é dúbia. Talvez não houvesse tantas razões para se prever a permanência de Flann O’Brien. Além de tudo, isso de permanência é mesmo um pouco relativo. Por mais que a gente queira (ardentemente, como eu quero) recusar os culturalismos na crítica e defender que há algo referente a mérito na canonização de nomes da história da arte, é impossível não perceber que há modas. O’ Brien, por exemplo, ainda não teve seu momento, mas parece que pode vir a ter.
Logo, se não vou fazer grandes apostas, o que me resta? Mérito intrínseco? Inovação? Recepção?
Do fim pro começo..
A recepção de livros que hoje são clássicos pode ter sido muito variada. Joyce enfrentou nada além de oba-oba desde a publicação dos primeiros trechos do Ulysses, mas perdeu até amigos quando começou a soltar o Finnegans Wake. William Gaddis viu seu primeiro livro linchado pela crítica ter de esperar vinte anos por uma reedição e um “reconhecimento”. Um livro estraçalhado hoje pode ser a festa da crítica em vinte anos...
Inovação? Aí é complicado..
Vou tomar, desde já, dois nomes que acho que são fortes candidatos a “permanência”. Jonathan Franzen e David Foster Wallace. Franzen, no seu megalivrão As correções, tirou quase tudo de Gaddis. Do título aos temas, passando pela técnica. Tudo ali é tributário de The recognitions e, em alguma medida, é também algo diluído. Nada de mau nisso. É um puuuta livro. Mas, no quesito inovação ele não tem muito o que dar. Fica meio na situação que a crítica musical costuma atribuir ao velho Bach, resumo de toda uma época. Como diz o Cristovão, todo o realismo americano está contido ali..
O Foster Wallace também tem relações com o Gaddis. Mas elas são mais ativas. Ele, ao invés de usar Gaddis como vanguarda e seguir no caminho aberto, dá alguns passos além. Ele é inovador. De fato. Por outro lado, ele tem relações de tributarismo, especialmente em seu primeiro romance, mas também no catatau Infinite jest, com um autor como Gilbert Sorrentino (em Mulligan Stew). Ora, Sorrentino é um clássico vanguardeiro. Ele estava ali pra abrir caminho mesmo, e tem para com Joyce e Flann O’Brien mais ou menos a mesma relação que Franzen tem com Gaddis.
Ele é mais inovador que qualquer um dos dois dos mais novos. Mas não acredito que isso lhe dê automaticamente vantagens na corrida pela dita “permanência”. E Gaddis, afinal, ainda não é todo esse clássico fora do mundo de língua inglesa, embora eu ache que deva vir a ser.
Mérito? Questão de opiniães para um amador como eu.
O que um leitor minimamente aparelhado sempre tem, no entanto, condições de sentir, é um certo “vigor”, uma força que alguns têm e outros não. Wallace e Franzen, Safran Foer... Talvez eles tenham. Me parece que sim. Will Self, outro muito citado, eu diria que não. Mas quem sou eu..?
Agora, uma resposta mais simples: Thomas Pynchon está na ativa, com romance publicado em 1997. Força, inovação, recepção eufórica, tudo ele tem.
Sei lá.
Vou ver se volto a isso.
P.S.: Dia desses (cês acreditam?) me esquivei de mais uma vez entrar, com um leigo, na conversa sobre a necessidade da academia e da crítica darem ouvidos ao mundo reconhecendo a relevância de Paulo Coelho... Bugalhos são bugalhos...
P.P.S.: Dias raros esses. A igreja católica se reconhece oficialmente acéfala!
Saúdes
Primeiro, tenho de informar a vosco e ao meu hermanito que eu não sou piciricas de profissional no mundo literário. Por que que eu, no entanto, entantejo e me semeto a escrever, afinal. Negosseguinte: como algumas gentes sabem, eu estou tem já dois anos e meio enfurnado em um doutorado sobre Joyce (figurão dos figurões..) e, em algum momento do ano passado, me dei conta de que o que certas pessoas me diziam passava a ser verdade: eu estava me transformando em um crente xiita do joyceanismo. Sendo assim, resolvi me desintoxicar de Joyce e, para tanto, me enfiei em ler alguma ficção recente que pudesse desfazer a impressão de que tudo acabava com Joyce. Assim, ao menos no campo da literatura de língua inglesa, tenho alguma noção...
Então, palpites.
Um. Eu nunca tendo a acreditar nessas “decadências”. No entanto, temos que levar em conta que, apesar do que pra gente é ainda uma absoluta centralidade, o romance como nós os conhecemos é um fenômeno recente e que pode, de fato, deixar de ser culturalmente relevante em algum momento. No entanto, nós vivemos em tempos em que a possibilidade de acesso a formas de cultura/entretenimento e a variedade são tão grandes que existe, por exemplo, um mundo rockabilly com mercados e cultos, um mundo de revival de swing, uma cultura de haicai com seus ícones... O romance não deve desaparecer. Pode diminuir seu espaço, mas, portanto, a pergunta do fratello continua válida.
Dois. Não sou profissional, não sou crítico, não tenho cultura nem colhão suficientes pra sair dizendo quem vai “permanecer” e quem não vai. E será esse o critério? Nos anos quarenta, alguns entendidos em literatura de língua inglesa poderiam apostar muitas fichas na “permanência”, digamos, de Joyce Cary. Que hoje é dúbia. Talvez não houvesse tantas razões para se prever a permanência de Flann O’Brien. Além de tudo, isso de permanência é mesmo um pouco relativo. Por mais que a gente queira (ardentemente, como eu quero) recusar os culturalismos na crítica e defender que há algo referente a mérito na canonização de nomes da história da arte, é impossível não perceber que há modas. O’ Brien, por exemplo, ainda não teve seu momento, mas parece que pode vir a ter.
Logo, se não vou fazer grandes apostas, o que me resta? Mérito intrínseco? Inovação? Recepção?
Do fim pro começo..
A recepção de livros que hoje são clássicos pode ter sido muito variada. Joyce enfrentou nada além de oba-oba desde a publicação dos primeiros trechos do Ulysses, mas perdeu até amigos quando começou a soltar o Finnegans Wake. William Gaddis viu seu primeiro livro linchado pela crítica ter de esperar vinte anos por uma reedição e um “reconhecimento”. Um livro estraçalhado hoje pode ser a festa da crítica em vinte anos...
Inovação? Aí é complicado..
Vou tomar, desde já, dois nomes que acho que são fortes candidatos a “permanência”. Jonathan Franzen e David Foster Wallace. Franzen, no seu megalivrão As correções, tirou quase tudo de Gaddis. Do título aos temas, passando pela técnica. Tudo ali é tributário de The recognitions e, em alguma medida, é também algo diluído. Nada de mau nisso. É um puuuta livro. Mas, no quesito inovação ele não tem muito o que dar. Fica meio na situação que a crítica musical costuma atribuir ao velho Bach, resumo de toda uma época. Como diz o Cristovão, todo o realismo americano está contido ali..
O Foster Wallace também tem relações com o Gaddis. Mas elas são mais ativas. Ele, ao invés de usar Gaddis como vanguarda e seguir no caminho aberto, dá alguns passos além. Ele é inovador. De fato. Por outro lado, ele tem relações de tributarismo, especialmente em seu primeiro romance, mas também no catatau Infinite jest, com um autor como Gilbert Sorrentino (em Mulligan Stew). Ora, Sorrentino é um clássico vanguardeiro. Ele estava ali pra abrir caminho mesmo, e tem para com Joyce e Flann O’Brien mais ou menos a mesma relação que Franzen tem com Gaddis.
Ele é mais inovador que qualquer um dos dois dos mais novos. Mas não acredito que isso lhe dê automaticamente vantagens na corrida pela dita “permanência”. E Gaddis, afinal, ainda não é todo esse clássico fora do mundo de língua inglesa, embora eu ache que deva vir a ser.
Mérito? Questão de opiniães para um amador como eu.
O que um leitor minimamente aparelhado sempre tem, no entanto, condições de sentir, é um certo “vigor”, uma força que alguns têm e outros não. Wallace e Franzen, Safran Foer... Talvez eles tenham. Me parece que sim. Will Self, outro muito citado, eu diria que não. Mas quem sou eu..?
Agora, uma resposta mais simples: Thomas Pynchon está na ativa, com romance publicado em 1997. Força, inovação, recepção eufórica, tudo ele tem.
Sei lá.
Vou ver se volto a isso.
P.S.: Dia desses (cês acreditam?) me esquivei de mais uma vez entrar, com um leigo, na conversa sobre a necessidade da academia e da crítica darem ouvidos ao mundo reconhecendo a relevância de Paulo Coelho... Bugalhos são bugalhos...
P.P.S.: Dias raros esses. A igreja católica se reconhece oficialmente acéfala!
Saúdes

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