Cronicamentente inviável
Fui ver “Quanto vale ou é por quilo?”.
Sátira mainardiana de boa cepa, como a Sandra já tinha me adiantado.
Pra quem não sabe (e pra eu dar uma enchidinha na minha parca lingüiça) o filme intercala uma narrativa que trata do mundo ongueiro contemporâneo com quadros, pequenas historietas, todas retiradas de arquivos históricos, referentes ao período da escravidão.
A idéia é que as estórias de época amplifiquem as ressonâncias dos temas tratados no segmento contemporâneo, botando na cara o cinismo envolvido em todas as relações.
Benemerentes, corruptos, pretos, brancos, jovens, velhos. Absolutamente todo mundo entra no saco cínico. (Se forem ver, o que eu recomendo, vejam bem até o finzinho, até depois de iniciados os créditos. Não sobra ninguém de pé. Se preciso, o autor ressuscita mortos putativos para degradá-los.)
No fim de contas, o retrato que resta é o bastante verossímil quadro de um mundo em que todo mundo está cuidando do seu. E se o que vale mais é alardear o interesse e o valor do outro, ora bolas, tem tanta coisa pior pra se fazer, não é?
O mais curioso é isso. Trata-se daquele tipo mais abrangente de sátira que aponta apenas pro beco sem saída. Espremendo bem, talvez não se possam questionar as ações de todas aquelas pessoas. Talvez elas estejam de fato fazendo o possível máximo, ou seja, o que pensam e esperam seja “bom”. Se nisso vai alguma vantagem pessoal, também, ora, tem tanta coisa pior pra fazer, né?
É claro que nada disso, nada dessa apontação de culpas inescapáveis pode fazer com que no fim a velha definição de sátira como “um espelho em que o espectador vê a todos menos a si próprio” continue valendo. Todo mundo pode sair do filme comodamente criticando a hipocrisia alheia, a venalidade alheia, a falta de vergonha generalizada sem se incomodar em ver que “é de ti que fala a estória”. E é.
Eu, meramente por estar aqui exercendo minha pusilanimidade e meu mau-humor às custas do filme e dizendo a futuros potenciais espectadores o que devem ver e o que vão deixar de ver estou entrando nos mesmos quadros.
Afinal, o próprio diretor, ao incluir com destaque (como manda o figurino) o nome de todas as empresas que desviaram dinheiro de pagamento de impostos para que ele pudesse fazer o seu filme e eles pudessem ter sua marca vinculada a um produto de “alta cultura”, o que pode interessar a seu público-alvo (ninguém perde: Sérgio Bianchi, a “cultura” brasileira [um dia tenho que escrever alguma coisa sobre esta nefasta e onipresente noção de “cultura”], a nossa imagem... que mal há nisso?) está fazendo PRECISISSIMAMENTE a mesma coisa que fazem as ongs de que ri seu filme.
Cada um acredita em suas verdades e por meio de qualquer empulhamento descarado se utiliza dos meios cínicos a seu dispor para fazê-las vistas. E se promover de quebra.
A verdade de Sérgio Bianchi, no entanto, é destrutiva e, por isso mesmo, mais necessária.
Pois apesar de algumas pessoas acreditarem no “pós-Seattle”, a verdade de Kaváfis continua válida. Os bárbaros não vieram.
Sátira mainardiana de boa cepa, como a Sandra já tinha me adiantado.
Pra quem não sabe (e pra eu dar uma enchidinha na minha parca lingüiça) o filme intercala uma narrativa que trata do mundo ongueiro contemporâneo com quadros, pequenas historietas, todas retiradas de arquivos históricos, referentes ao período da escravidão.
A idéia é que as estórias de época amplifiquem as ressonâncias dos temas tratados no segmento contemporâneo, botando na cara o cinismo envolvido em todas as relações.
Benemerentes, corruptos, pretos, brancos, jovens, velhos. Absolutamente todo mundo entra no saco cínico. (Se forem ver, o que eu recomendo, vejam bem até o finzinho, até depois de iniciados os créditos. Não sobra ninguém de pé. Se preciso, o autor ressuscita mortos putativos para degradá-los.)
No fim de contas, o retrato que resta é o bastante verossímil quadro de um mundo em que todo mundo está cuidando do seu. E se o que vale mais é alardear o interesse e o valor do outro, ora bolas, tem tanta coisa pior pra se fazer, não é?
O mais curioso é isso. Trata-se daquele tipo mais abrangente de sátira que aponta apenas pro beco sem saída. Espremendo bem, talvez não se possam questionar as ações de todas aquelas pessoas. Talvez elas estejam de fato fazendo o possível máximo, ou seja, o que pensam e esperam seja “bom”. Se nisso vai alguma vantagem pessoal, também, ora, tem tanta coisa pior pra fazer, né?
É claro que nada disso, nada dessa apontação de culpas inescapáveis pode fazer com que no fim a velha definição de sátira como “um espelho em que o espectador vê a todos menos a si próprio” continue valendo. Todo mundo pode sair do filme comodamente criticando a hipocrisia alheia, a venalidade alheia, a falta de vergonha generalizada sem se incomodar em ver que “é de ti que fala a estória”. E é.
Eu, meramente por estar aqui exercendo minha pusilanimidade e meu mau-humor às custas do filme e dizendo a futuros potenciais espectadores o que devem ver e o que vão deixar de ver estou entrando nos mesmos quadros.
Afinal, o próprio diretor, ao incluir com destaque (como manda o figurino) o nome de todas as empresas que desviaram dinheiro de pagamento de impostos para que ele pudesse fazer o seu filme e eles pudessem ter sua marca vinculada a um produto de “alta cultura”, o que pode interessar a seu público-alvo (ninguém perde: Sérgio Bianchi, a “cultura” brasileira [um dia tenho que escrever alguma coisa sobre esta nefasta e onipresente noção de “cultura”], a nossa imagem... que mal há nisso?) está fazendo PRECISISSIMAMENTE a mesma coisa que fazem as ongs de que ri seu filme.
Cada um acredita em suas verdades e por meio de qualquer empulhamento descarado se utiliza dos meios cínicos a seu dispor para fazê-las vistas. E se promover de quebra.
A verdade de Sérgio Bianchi, no entanto, é destrutiva e, por isso mesmo, mais necessária.
Pois apesar de algumas pessoas acreditarem no “pós-Seattle”, a verdade de Kaváfis continua válida. Os bárbaros não vieram.

0 Comments:
Post a Comment
<< Home