O tempora: humores
Eu, na minha vida, tive três namoradas. (Cinco, na verdade, contando as de dias e semanas)
Eu, na minha vida, tive cinco guitarras. (Seis, na verdade.. contando a de dias..)
As guitarras levam a melhor.
As duas primeiras (Guitarras. Daqui pra frente esqueçam as namoradas, que tinham só a finalidade de dar um contraponto qualquer. Pretenso. Sem graça.) eu ganhei do meu pai. (Imaginem se fossem as namoradas. Mas esqueçam as namoradas, daqui pra frente.) Duas Gianninis. Uma azul modelo sonic, acho que em 86. Aí veio uma Les Paul preta, ano 75, que eu ganhei em 89.
Depois disso eu passei por um grande período violonístico, em que a guitarra era meio que o demônio. Fui pro conservatório, saí. Entrei na universidade, saí formado. Entrei no mestrado. Tive uma filha. Entrei na docência. Consegui juntar 75 dólares, na época preciosa do um pra um e comprei uma guitarra velha de um conhecido endinheirado que não dava a mínima pra ela. Uma Epiphone, preta, modelo telecaster, depois de ficar nove anos com a Giannini.
Acho que estava começando a ficar velho. Montei uma banda com meus amiguinhos. Começamos a tocar em 98. Minha última banda antes dessa tinha acabado em, sei lá, 89. Cabalístico..
Gosto muito dessa Epiphone. Vagabunda, bronca, durona. Legal. E as teles têm um visual legal, super fifties.
Aí terminei o mestrado. Me separei. Me enfezei, fui pra São Paulo e comprei uma guitarra. Uma Fender, preta, ano 97, modelo stratocaster, fabricada no México. Isso era 2001.
Aí Doutorado. Casei. Mudei de casa. Faltou espaço pra três guitarras, dois violões, um cavaquinho, uma viola caipira, etc.. Vendi a Epiphone e a Giannini que restava (a primeira perdeu-se na poeira dos tempos: acho que meu pai vendeu pra um colega dar pro filho.). Comprei um clarinete.
Agora estou pra vender a Strato pra tapar o buraco bancário, porque comprei mais uma (depois de uma experiência frustrada com uma outra que devolvi pra loja de tão ruim que era..): uma Ibanez semi-acústica, vermelha, com Bigsby, primeiro instrumento que comprei novo na vida.
Agora, vejam só, vocês que agüentaram até aqui.
A primeira coisa é a vagabundice, que vai muito bem com minha incompetência musical: dois instrumentos nacionais, uma Epiphone imitação de Fender (sendo que a Epiphone, hoje, é a segunda linha da Gibson), uma Fender, sim, mas mexicana (segunda linha das Fender) e uma Ibanez, nova, sim, mas chinesa (segunda linha..). Segunda linha, c’est moi.
A segunda coisa é a decadência. Depois de três instrumentos pretos e sérios, compro uma guitarra vermelha! O símbolo do símbolo da futilidade. E, pra quem não conhece uma semi-acústica com Bigsby, posso apenas dizer que elas são mais ou menos o equivalente, no mundo guitarrístico, de uma Harley Fat Boy.
Hoje de manhã, cúmulo de desgraças, estava trocando cordas da Olga (Olga é a Ibanez, em homenagem a Michael “Olga” Algar, líder dos imbatíveis Toy Dolls; a Fender era chamada de Zappatista, com dois pês, em homenagem ao Zappa e ao México e, mais perto do fim, Generosa... as outras tiveram nome não.). É difícil trocar cordas de uma guitarra desse tipo. Elas têm um sistema de molas que dificulta bastante as coisas.
Sentado, barriguinha dobrada, calva vicejante, no sofá que acabamos de mandar recobrir, ouvindo Black Crowes (banda retrô), com o púdou do meu lado, eu trocava as cordas da minha guitarra vermelha anos 50 e pensava, pela primeira vez na vida, enquanto cuidava da posição das cordas no cavalete e na pestana (em uma e outra ponta), que bifocais podiam bem vir a calhar.
Bifocais.
Minha banda voltou a tocar. Tem ensaio amanhã.
Eu, na minha vida, tive cinco guitarras. (Seis, na verdade.. contando a de dias..)
As guitarras levam a melhor.
As duas primeiras (Guitarras. Daqui pra frente esqueçam as namoradas, que tinham só a finalidade de dar um contraponto qualquer. Pretenso. Sem graça.) eu ganhei do meu pai. (Imaginem se fossem as namoradas. Mas esqueçam as namoradas, daqui pra frente.) Duas Gianninis. Uma azul modelo sonic, acho que em 86. Aí veio uma Les Paul preta, ano 75, que eu ganhei em 89.
Depois disso eu passei por um grande período violonístico, em que a guitarra era meio que o demônio. Fui pro conservatório, saí. Entrei na universidade, saí formado. Entrei no mestrado. Tive uma filha. Entrei na docência. Consegui juntar 75 dólares, na época preciosa do um pra um e comprei uma guitarra velha de um conhecido endinheirado que não dava a mínima pra ela. Uma Epiphone, preta, modelo telecaster, depois de ficar nove anos com a Giannini.
Acho que estava começando a ficar velho. Montei uma banda com meus amiguinhos. Começamos a tocar em 98. Minha última banda antes dessa tinha acabado em, sei lá, 89. Cabalístico..
Gosto muito dessa Epiphone. Vagabunda, bronca, durona. Legal. E as teles têm um visual legal, super fifties.
Aí terminei o mestrado. Me separei. Me enfezei, fui pra São Paulo e comprei uma guitarra. Uma Fender, preta, ano 97, modelo stratocaster, fabricada no México. Isso era 2001.
Aí Doutorado. Casei. Mudei de casa. Faltou espaço pra três guitarras, dois violões, um cavaquinho, uma viola caipira, etc.. Vendi a Epiphone e a Giannini que restava (a primeira perdeu-se na poeira dos tempos: acho que meu pai vendeu pra um colega dar pro filho.). Comprei um clarinete.
Agora estou pra vender a Strato pra tapar o buraco bancário, porque comprei mais uma (depois de uma experiência frustrada com uma outra que devolvi pra loja de tão ruim que era..): uma Ibanez semi-acústica, vermelha, com Bigsby, primeiro instrumento que comprei novo na vida.
Agora, vejam só, vocês que agüentaram até aqui.
A primeira coisa é a vagabundice, que vai muito bem com minha incompetência musical: dois instrumentos nacionais, uma Epiphone imitação de Fender (sendo que a Epiphone, hoje, é a segunda linha da Gibson), uma Fender, sim, mas mexicana (segunda linha das Fender) e uma Ibanez, nova, sim, mas chinesa (segunda linha..). Segunda linha, c’est moi.
A segunda coisa é a decadência. Depois de três instrumentos pretos e sérios, compro uma guitarra vermelha! O símbolo do símbolo da futilidade. E, pra quem não conhece uma semi-acústica com Bigsby, posso apenas dizer que elas são mais ou menos o equivalente, no mundo guitarrístico, de uma Harley Fat Boy.
Hoje de manhã, cúmulo de desgraças, estava trocando cordas da Olga (Olga é a Ibanez, em homenagem a Michael “Olga” Algar, líder dos imbatíveis Toy Dolls; a Fender era chamada de Zappatista, com dois pês, em homenagem ao Zappa e ao México e, mais perto do fim, Generosa... as outras tiveram nome não.). É difícil trocar cordas de uma guitarra desse tipo. Elas têm um sistema de molas que dificulta bastante as coisas.
Sentado, barriguinha dobrada, calva vicejante, no sofá que acabamos de mandar recobrir, ouvindo Black Crowes (banda retrô), com o púdou do meu lado, eu trocava as cordas da minha guitarra vermelha anos 50 e pensava, pela primeira vez na vida, enquanto cuidava da posição das cordas no cavalete e na pestana (em uma e outra ponta), que bifocais podiam bem vir a calhar.
Bifocais.
Minha banda voltou a tocar. Tem ensaio amanhã.

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