Sunday, May 29, 2005

Três porquinho

Um porquinho. Do desaparecimento de de.
Cês já perceberam a extinção da preposição de? Tudo começou com aquelas orações relativas malucas em que é necessário fazer a regência do verbo antes do verbo regente aparecer. Tipo, as pessoas de que eu gosto não usam essas construções. Sabe como? Você precisa usar o de antes de surgir na frase o verbo que exige que você o use.
Sabe qual que é o problema aí? Tem que pensar.
Não adianta só falar. Você precisa usar a bosta que tem entre as orelhas e se adiantar no que vai dizer. A cabeça tem que ser mais rápida que a língua. Convenhamos, é pedir demais da maioria de nós. Conclusão: frases como, as coisas que você precisa estão na loja tal. Cada vez mais freqüentes.
Mas, dirão vocês (digam, digam..), nesse caso não se trata de uma perseguição direta ao prove do de. Ele só uma preposição muito comum (a mais) nessa posição. Por isso parece ser com ele a coisa.
Mas então vem o galicismo seboso dos vendedores de shopping que, não contentes com a frecurite de dizer que tal roupa eles só tem NO preto não tem NO azul. Agora conseguiram contaminar até construções como, sapatos EM couro, palmilhas EM borracha.
Cáscara sagrada!
O que é que tem de mau com o plebeuzinho do de? Esse é o mesmo povo que vai sempre estar tentando estar enchicando seu analfabetismo. (Meus colegas lingüistas que não me ouçam.)
A sandra me disse que ouviu dizer que no orkut (na orkut?) tem uma comunidade chamada “eu odeio o mesmo”, que usa como mote aquela plaquinha dos elevadores: verifique se o mesmo está parado neste andar. Eu amo o de.
Dois porquinho. Versalhes.
Estamos vivendo o fausto da corte francesa pré-revolução. E o descaramento daquela nobreza. Ostentação, ostentação, ostentação.
Dia desses na folha uma cantora, cuja eu não me lembro o nome dela, respondendo a um pingue-pongue (por si só bocó) que terminava com uma pergunta do tipo “seu momento preferido”, “quando você se sente bem”, soltou a seguinte pérola:
Quando estou ralando trufas brancas sobre pasta al dente.
Aaargh!
Trufas brancas custam os cus das nossas calças (procurei na internet; pode passar de mil dóla o quilo), pasta é viadagem pra massa, al dente só estava li pra mostrar como ela é raffinée. E sabe o que mais me dói? (Você escolheu errado seu super-herói) Era capaz da safada dizer uma coisa dessas num daqueles registros “prazeres simples da vida” que também são cada vez mais freqüentes.
Aaargh!
Ponha o pé no chão e a cabeça na guilhotina.
Os bárbaros! Os bárbaros! Vergonha na cara! Vergonha! Ai que!
Três porquinho. Cultura.
Uma vez fui reclamar no vizinho que alugava a casa para fazerem ensaios de bandas (eu pago pra ensaiar com os bichos buenos num estúdio isolado acusticamente!). Aí ele me responde (como eu queria que ele estivesse lendo..): É sempre assim; quando alguém resolve fazer alguma coisa pela cultura nessa cidade tem todo tipo de dificuldade...
Tempo para eu esfriar as válvulas,
Semana passada estava zappeando (em homenagem a don Francesco) e vi segundo de uma entrevista de um dançarino de salão que dizia que achava que a escola devia contemplar desde cedo a dança para valorizar a cultura popular brasileira.
Cultura. A palavra mágica para ganhar dinheiro público e uma aura de pretenso respeito.
Arte não serve pra nada. Isso faz parte da definição de arte. Um objeto de arte não tem utilidade pragmática, a não ser que você resolva usar um livro pra calçar uma mesa bamba. Logo, pensam os tatus, tudo que não tem utilidade é arte e, logo, cultura e, logo, defensável e nobre.
Bandinhas de boteco. Teatro amador. Tecelãs de bolsas de Paranapiúna. A boiada do congado de Marcelópolis e o cineasta de Londrina.
E Brutus é um homem honrado.
E tenho dito, quer saber?

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