Sunday, May 01, 2005

Woody Blues

Woody Allen está vivendo um aparente fim melancólico.
Ele é muito melhor que a gente, e ninguém, como dizia um jornalista britânico que o entrevistou, pode dizer que ele já fez o seu melhor. O cara pode mandar mais um Maridos e Esposas daqui a pouquinho.
Não vou nem discutir o mérito de seus filmes mais recentes. As opiniões variam muito. Eu adorei Como Tudo na Vida e detestei A Maldição do Escorpião de Jade. Muita gente, mesmo entre os fãs, diz o contrário. Porra, quem é, por aí, que faz um filme por ano, todo ano? É de se esperar que isso oscile.
Quando falo do aparente fim, penso em dados. Recentemente, quando do lançamento de Anything Else, uma vaca de uma repórter do Times fez um texto podre (ó o fã putão) se refestelando na situação do seu Woody. Dizia ela “ai, quem diria, ele agora faz entrevista coletiva de divulgação de filmes; ele que sempre esnobou a imprensa”. Ora, que fique tudo muito claro. Quem está a serviço de quem. Odeio esse axioma de jornalistas que reza que todos têm de dar as informações de que eles precisam. Entre políticos, ótimo. Entre artistas, é pretensão de quem se julga mais importante. Se o cara não quer falar ele não está esnobando porra nenhuma. Coletiva de divulgação é marketing. Não é informação. Marketing você usa quando precisa. Ninguém citaria a vaca do Times no Brasil (a folha reproduziu o texto) não fosse pelo Woody Allen.
Ela é quem precisa dele.
(E ele não é exatamente um esnobão. Sobre fazer um filme por ano, por exemplo, ele diz o seguinte. “Eu termino de filmar, aí passo umas duas, três semanas descansando. Aí, ora, o que que a gente faz da vida?: eu ouço música, assisto meu basquete, fico com a minha família, mas ainda sobra tempo; aí eu começo a escrever. Eu sou um escritor, só dirijo filmes para poder dirigir meus roteiros. E depois que escrevi quero filmar.”
Sobre atores famosos trabalharem com ele pelo preço mínimo do sindicato (ninguém ganha mais que isso com ele):
“Não é bem assim. Se eles têm um trabalho bom pagando dez milhões já agendados, ninguém aceita trabalhar comigo. Mas eu sempre convido em julho, agosto, quando está todo mundo desocupado. Aí eles vêm.”)
Aí agora então o cara está definitivamente sem dinheiro. Há anos, anos mesmo, que os filmes dele só se pagam pela renda das bilheterias francesas. Nos Estados Unidos ele dá prejuízo. (Recentemente, quando lhe perguntaram o que ele faria de diferente em sua vida, ele primeiro respondeu brincando, “não leria Beowulf” (que é um puta poema!), e, depois, disse, “talvez eu tivesse ficado morando em Paris depois de lançar What’s New Pussycat. Teria sido legal passar a vida fazendo filmes em Paris..” Woody Allen. O Novaiorquino-rei.!
O último filme dele (Match Point) foi todo rodado EM LONDRES, porque os estúdios americanos não podem investir os 15 milhões (máximo! salário do diretor incluído!) que custam seus filmes. Eles preferem investir 100 em um filme que gera 500 do que manter produzindo alguém que custa 15 e gera 17, em dois anos, com lançamento em dvd.. Business..
Uma entrevista recente chega a sugerir que Melinda e Melinda pode bem ter sido o último filme novaiorquino do diretor. Talvez ele passe mesmo a trabalhar só na Europa. Talvez deixe o cinema. Pela primeira vez em muito tempo ele tem um filme sendo terminado e ainda não fala no próximo. Talvez ele fique no teatro (vai dirigir um texto seu ainda este ano..)
Eu não vou me agüentar de saudade..
Alénn disso, vejam só: Melinda e Melinda é metade tragédia metade comédia, sem participação de Woody. Match Point parece (ninguém sabe muito sobre os filmes dele antes do lançamento, os atores, inclusive, só recebem suas falas e só vêem o copião de suas cenas.) ser um drama, ou um suspense.. Sem ele, ou com ele em um pedacinho pequeno. Cadê os risadões de Anything Else?
Ele sempre falou muito mal de seus filmes. Ele diz que filmar se trata de um processo contínuo de seguidas decepções. Que entre a idéia, o roteiro, o casting, a filmagem e a edição, o brilho que se via de início vai se perdendo parte a parte. Agora ele está falando bem de seu último filme. E isso é de fato raríssimo. Estamos falando de um cara que se propôs a fazer um filme de graça para o estúdio se lhe devolvessem a cópia máster de Manhattan para ele jogar fora. E agora fala bem de seu drama inglês.
Desespero?
Ele precisa de financiamento, e parece que não vão dar mesmo.
Um dos textos que achei na internet descrevia um dia de filmagens de externas em Londres. Sempre que as nuvens cobriam o sol (ele odeia fotografar com sol) ele entrava em ação, com a cópia do roteiro na mão, olhando por cima do ombro do operador de câmera (mesmo sua equipe padrão se desmantelou: sua produtora de décadas o processou; cadê Susan E. Morse, Santo Loquasto, Mel Bourne e uma renca de outros que ficaram familiares para os adoradores em um tempo em que até o nome do operador de câmera de Woody Allen era famoso: Dick Mingalone..). E lá vem uma multidão de curiosos pedir autógrafos.
E nosso amigo, setenta anos em dezembro de 2005, comenta com o repórter inglês, quando o sol aparece e interrompe as filmagens:
­“Se pelo menos algumas dessas pessoas que vêm pedir autógrafos fossem ver os meus filmes...”
Boa sorte.

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