Sunday, June 19, 2005

André

Estou ficando velho junto com você, Andreiusha. Eu que sou coisa de semanas mais novo. E estou ficando chato igual a você. Daqui a pouco vou estar assinando embaixo de manifestos adornianos.
Aos que não são o André, digo de maneira mais direta. Do meu ponto de vista adolescente e imaturo, estou ficando tristemente triste. O roquenrol feito hoje já não me diz nada. Patavinas. Só compro discos de bandas velhas que fizeram sentido antes e de música erudita. Acredito cada vez mais em indústrias culturais como única razão e condicionamento de gostos no mundo pop. Me ressinto cada vez mais do populacho. (Deus meu, André, eu já estou parecendo é o Polzonoff!)
E isso tudo pra um cara que gostava de Toy Dolls, uma banda punk que cantava nonsense com voz de bonecos...
Mas a bem da verdade eu ainda gosto de Toy Dolls. Ainda há salvação.
No meu plano de me tornar um velho ranheta, só me incomoda isso: ter de dar um pouco (só um pouquinho, não abuse) de razão ao André, depois de treze anos de discussões acaloradas.. Mas isso é coerente, ser um velho ranheta envolve ser turrão. Não posso ceder a razão sem dor.

E tudo isso, caros fottutissimi amici, pra dizer que eu, que nunca suportei axé, que me retorci de desgosto quando vi o primeiro vídeo da Daniella Mercury na MTV, hoje me encontro em situação mais desesperadora. Me vejo mais ilhado pela bosta.
Porque não há um só lugar em que a gente não entre e em que ela não esteja. Tem tempo já que eu vinha me referindo a ela como a onipresente Ivete Sangalo, mas a coisa está passando mesmo dos limites da ubiqüidade, ou meu mau humor é que está.
Você entra no supermercado, estão tocando o dvd dela, você vai ao shopping, lá está ela, você liga a tevê, ela está em um show ao vivo reprisado ao morto centenas de milhares de vezes, você passa diante de uma loja na calçada estão estuprando os teus tímpanos com a meleca do pererê!

Certa vez assisti a uma palestra do maestro Colarusso sobre a música do século XVIII. Ele lembrava que um diferencial de que freqüentemente nos esquecíamos era o fato de que aquelas pessoas não viviam cercadas por música; de que, nas palavras dele “para se ouvir música era preciso que alguém sentasse ao piano e fizesse clang”.
Hoje penso mais é que eles não eram invadidos por música que não queriam. Fico me sentindo, quando me empurram Ivete Sangalo gorja abaixo, como o Alex de Laranja Mecânica, lembram? Para ele o mais difícil do sistema Ludovico não era assistir às cenas de violência, isso era um castigo que ele de fato merecia por sua iniqüidade, o problema era dessacralizarem Beethoven usando a nona sinfonia como música de fundo para a barbárie.
E eu com Euterpe. A estupidez que a gente é obrigado a ver eu até aceito imposta. Mas precisava ter trilha sonora?
Precisava deturpar o sistema abstrato mais perfeito que o homem já criou?
Não dava pra deixar a música de fora?

Semana que vem, ode ao acorde diminuto.

1 Comments:

Blogger Éle-Zê said...

Ei, velhinho: já ouviu o novo Oasis? Batuta! Bem batuta...

June 19, 2005 1:58 PM  

Post a Comment

<< Home