I, me, mine
Essa semana li um texto daquele Contardo Calligari (Calligaris?) que me deixou bem impressionado. Eu nem costumo ler a coluna desse cara, como minha ignorância do nome dele deixa bem claro. Mas fui ver porque se tratava de coisas sobre terrorismo e o mundo árabe, e eu imaginava o que iria encontrar, e aparentemente gosto de sofrer ao ver minhas piores expectativas confirmadas.
Odeio textos edwardsaidianos que exploram complexos de culpa ocidentais para expor as verdadeiras razões por trás dos ataques. E eles são o mais freqüente, ao menos na Folha. (Aliás, vale dizer [em época de efemérides sartrianas, em que as pessoas andam reavaliando a eventual decadência da influência do vesguinho na cultura ocidental] que poucos pensadores parecem ter tido uma decadência post-mortem tão grande quanto a que recebeu Said depois de sua morte: não paro de ver textos de refutação na imprensa...)
Deixemos claro, o sistema colonial europeu-nortamericano promoveu o diabo na África e, também, no Oriente Médio (quem não acredita ou precisa de mais confirmação só dê uma olhada naquele "Todos os homens do xá", que meu brodinho não cansa de recomendar). E é óbvio que eles terão de colher conseqüências dessas medidas. Por outr lado, há que se dizer claramente que, malgrado as influências americanas sobre Sadam e Bin Laden, por exemplo, os ataques em Londres ou este último atentado no Iraque são obra de malucos obscurantistas perigosos. Não há camiseta de Che Guevara, não há diabolismo Bushiano que resolva este elemento da equação.
A bem da verdade, é perigosíssimo o uso que certa parte da imprensa ocidental como que autoriza, desse legítimo complexo de culpa (ou complexo de legítima culpa) para corroborar uma eterna imagem de espoliação e reação legítima ao uso da força, com mais força.
O texto do seu Contardo começava citando um intelectual italiano, cujo eu não me lembro o nome do qual (e sou preguiçoso demais para ir procurar) que dizia que um povo não pode sequer começar a compreender sua história se ele não se mostrar disposto a lê-la como autobiografia. Dizia ele que esse seria um processo muito semelhante ao da epifania psicanalítica: é preciso parar de gemer e reclamar dos traumas e castrações sofridos, é preciso parar de imputar responsabilidades e de agir responsivamente justificando seus procedimentos com base em uma imagem de condicionamente irrevogável.
Enquanto, dizia ele, os povos do oriente médio, ou a África, não se dispuserem a conceber sua história como autobiografia responsável, as portas estarão abertas para que se "justifiquem" as ações de maníacos medievais.
*
A menção à África no parágrafo anterior, vem, aliás, da leitura recente de um outro texto (esse recomendado pelo meu irmão): uma entrevista de um economista queniano que dizia "pelo amor de Deus, parem de ajudar a África", em um apelo para que a Europa e os Estados Unidos (mais uma vez movidos por infindos complexos de culpa que encontram paliativos imediatos em caridade de curto prazo perpetuamente renovável) deixassem a África se erguer por suas pernas, permitissem (abortando um sistema que pouco mais faz que engessar o desenvolvimento eternizando a dependência: a África cumpriria assim sua função de depósito de culpas e "boasintenções" do assisntencialismo ocidental, dando sono tranqüilo a todos nós) que se erguesse uma infra-estrutura autônoma, deixassem que a vida do continente africano se formasse como autobiografia.
Dizia ele, "vocês podem não se dar conta disso, mas nós já estávamos lá antes de vocês chegarem".
Tenho dito
Odeio textos edwardsaidianos que exploram complexos de culpa ocidentais para expor as verdadeiras razões por trás dos ataques. E eles são o mais freqüente, ao menos na Folha. (Aliás, vale dizer [em época de efemérides sartrianas, em que as pessoas andam reavaliando a eventual decadência da influência do vesguinho na cultura ocidental] que poucos pensadores parecem ter tido uma decadência post-mortem tão grande quanto a que recebeu Said depois de sua morte: não paro de ver textos de refutação na imprensa...)
Deixemos claro, o sistema colonial europeu-nortamericano promoveu o diabo na África e, também, no Oriente Médio (quem não acredita ou precisa de mais confirmação só dê uma olhada naquele "Todos os homens do xá", que meu brodinho não cansa de recomendar). E é óbvio que eles terão de colher conseqüências dessas medidas. Por outr lado, há que se dizer claramente que, malgrado as influências americanas sobre Sadam e Bin Laden, por exemplo, os ataques em Londres ou este último atentado no Iraque são obra de malucos obscurantistas perigosos. Não há camiseta de Che Guevara, não há diabolismo Bushiano que resolva este elemento da equação.
A bem da verdade, é perigosíssimo o uso que certa parte da imprensa ocidental como que autoriza, desse legítimo complexo de culpa (ou complexo de legítima culpa) para corroborar uma eterna imagem de espoliação e reação legítima ao uso da força, com mais força.
O texto do seu Contardo começava citando um intelectual italiano, cujo eu não me lembro o nome do qual (e sou preguiçoso demais para ir procurar) que dizia que um povo não pode sequer começar a compreender sua história se ele não se mostrar disposto a lê-la como autobiografia. Dizia ele que esse seria um processo muito semelhante ao da epifania psicanalítica: é preciso parar de gemer e reclamar dos traumas e castrações sofridos, é preciso parar de imputar responsabilidades e de agir responsivamente justificando seus procedimentos com base em uma imagem de condicionamente irrevogável.
Enquanto, dizia ele, os povos do oriente médio, ou a África, não se dispuserem a conceber sua história como autobiografia responsável, as portas estarão abertas para que se "justifiquem" as ações de maníacos medievais.
*
A menção à África no parágrafo anterior, vem, aliás, da leitura recente de um outro texto (esse recomendado pelo meu irmão): uma entrevista de um economista queniano que dizia "pelo amor de Deus, parem de ajudar a África", em um apelo para que a Europa e os Estados Unidos (mais uma vez movidos por infindos complexos de culpa que encontram paliativos imediatos em caridade de curto prazo perpetuamente renovável) deixassem a África se erguer por suas pernas, permitissem (abortando um sistema que pouco mais faz que engessar o desenvolvimento eternizando a dependência: a África cumpriria assim sua função de depósito de culpas e "boasintenções" do assisntencialismo ocidental, dando sono tranqüilo a todos nós) que se erguesse uma infra-estrutura autônoma, deixassem que a vida do continente africano se formasse como autobiografia.
Dizia ele, "vocês podem não se dar conta disso, mas nós já estávamos lá antes de vocês chegarem".
Tenho dito

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